Monday, February 22, 2010

Hóquei

Tenho por vezes a sensação de ser a única pessoa que se desvia das outras na rua.

Faço-o de forma inata, sem me interrogar, porque o considero uma regra cívica e de correcção interpessoal. Isto é, até que me aparece pela frente aquela pessoa que faz transbordar o copo. Esta criatura é sempre a mesma, fiel aos seus modos. Encara-me de frente, em indisfarçável desafio, e na sua expressão lê-se a convicção de que é um seu direito intocável caminhar em linha recta. Como o meu hábito de desviar-me não necessita de confirmação individual, é o que faço, mas já com a pulga atrás da orelha.

Esta pessoa funciona como wake up call. Para esse dia, reservo-me o direito da prioridade, e quem se atravessar no meu caminho terá de pagar o preço. E é o que sucede.

O passeio transforma-se num campo de hóquei e a regra é aplacar. Tumb! Tumb! Tumb! O meu ombro é usado constantemente, ocasiões há em que até adopto pose atacante, inclinando o tronco para o adversário e enrijecendo a perna que vai amortecer o impacto.

Esboço um sorriso escarninho de cada vez que a vítima é abalroada e os dentes cerrados chegam a brilhar quando aquela perde o equilíbrio e vacila no seu passo. É a vitória total. Touchdown – a última queixa-se verbalmente e é fulminada pelo meu olhar, quem é que lhe disse que só eu deveria tomar atenção aos obstáculos do trajecto?

É estranho notar que tão poucas pessoas reconhecem que deveriam usar a sua visão periférica para evitarem contactos menos proveitosos deste tipo.

No dia seguinte volto ao normal. Até ver.

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