Monday, February 22, 2010

quem sou?

Sempre fui cauteloso e tímido em relação ao sexo feminino. Ao ponto de quase perder mulheres que estavam prontas a entregarem-se-me à menor palavra nesse sentido, mas cujo interesse em mim nelas era incapaz de suspeitar. Quase perdi aquelas que se fazem distantes, mas afinal querem apenas regatear a posição dominante. Perdi as presunçosas, não fiz o menor gesto. Não perdi mais nenhuma, para além das que escaparam.


Mas nenhuma me diria tímido, não senhor. Até me atribuiriam títulos de pedante, convencido, inchado. Sou demasiado bom actor, até para o meu próprio bem. Para se ultrapassar a acanhez, cria-se uma persona, desenvolve-se um fato e coloca-se a capa sobre todo o conjunto. Voilá Casanova, Arséne Lupin sem propósitos menos próprios.


Aprumo o bigode que não uso e o mel deixa os meus lábios como abelhas prontas a ferrar a vítima com a seiva da sedução. Já não sei o que digo, mas as tiradas são certeiras, perfeitamente adequadas ao alvo, o scanning é imediato e total, não escapa uma faceta da anatomia e depois trabalho as da indumentária e testo as da personalidade. Gosto de as fazer sentir bem. A verdade é que não peço nada em troca. No último instante, retraio-me sempre, deixo-as à nora, fico à nora. O que estou a fazer, o que pretendo, o que se passa? Sou saltitão, vou e venho, como o assassino que dá vinte facadas mas rodopia entre cada uma, ensaia a dança da alegria em pleno jorro de sangue, e deixo a vítima na falsa segurança de que a última facada já lhe penetrou a carne, quando a lâmina volta sempre a revoltear esfomeada, brilho letal e eternamente insatisfeito, vinte facadas não chegam, mas não chegam para o quê.


Sou um galanteador sem objectivo. Não me compreendo. Todas se sentem cativadas, nenhuma acaba escolhida. Regresso sempre sozinho. Não sei que fim atingi, mas venho enebriado pelo poder sem sentido de criar sorrisos humedecidos e corações pulsantes, peles que não se retraem ao meu toque, almas que se desvelam às minhas dúvidas indiscretas. Sou um cupido cujas flechas não carregam o nome do remetente. Deixo-as levitar mas não as enlaço, não levo nada comigo.


Quem sou?


12 comments:

  1. Fico contente ao ler isto, consegui perceber que a minha capacidade dedutiva ainda está em alta.

    gostei de reler alguns textos e de descobrir novos:)


    fui a primeira a comentar o blog:P

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  2. Olá, Sam :)

    sempre atenta, nada escapa a esse radar :)

    quanto a descobrir novos textos, todos eles são do lj, entre 2005 e 2006, que foi o transplante que fiz até agora de postas de lá. a única excepção é uma mão cheia de coisas curtas que saíram recentemente na minha Caras.

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  3. não escapa mesmo nada:)

    sim, a grande maioria são textos que eu ja conhecia, o teu lj ja levou revisão completa:)
    os da caras já eu comentei noutros sitios:P

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  4. se te contar ficas a saber tanto como eu:P

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  5. se não me contares vai parecer que foi por mero acaso e queres que pareça que deu trabalho :P

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  6. foi mesmo por acaso.
    Eu não te ando a pesquisar. lol

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  7. e em que consistiu esse acaso, especificamente?

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  8. lol, pronto, eu conto.
    no outro blog carreguei sem querer no teu perfil, como vi que tinha um blog novo vim investigar.
    sim, tambem ja vi o outro:P

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  9. também achei que fosse isso :)

    achei melhor assegurar o título em blogs antes que alguém se afiambrasse ao meu nome de guerra.

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  10. é bastante simples:P
    fizeste bem, até porque é a tua cara:)

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