Sunday, February 21, 2010

Tic Tac

É sempre um risco, quando se combina um encontro com alguém que não se conhece.

Marca-se o lugar e trocam-se os números de telemóvel para o caso de surgir um imprevisto à nossa ou à outra parte, e espera-se que tudo corra pelo melhor. Enquanto nos deslocamos ao rendez-vous, vamo-nos interrogando sobre o momento em que nos cruzaremos. Será ela parecida com as fotografias que nos enviou, iremos reconhecê-la, irá ela reconhecer-nos, quem chegará primeiro, quem dará o primeiro passo? O que trará vestido, quais serão as suas primeiras palavras, qual o aspecto do seu sorriso, sorrir-nos-á de todo?

Cada um no aconchego do seu lar, umas vezes na sala apenas iluminada pelo candeeiro de mesa, outras aconchegado na cama, trocámos informações vitais, pusemos um pouco de nós em cada texto, demo-nos a conhecer em pequenas medidas bem estudadas. Como iríamos dar-nos face a face? Como decorreria o encontro? Espalhariam pétalas de rosas no nosso caminho e soariam as trombetas, coroando um instante mágico que poderia nunca vir a ser ultrapassado, ou seria um martírio de cortar os pulsos e lamentar que a seiva não corresse mais depressa?

É sempre impossível antever se viríamos a desejar que o encontro durasse para sempre ou não termos aparecido de todo.

Cheguei antes da hora. Por alguma razão, julguei que ela seria pontual, se não se antecipasse também. Escolhi o meu poiso baseado em cálculos matemáticos de posicionamento face ao local específico de encontro, ao espectro do mesmo para minha própria visibilidade e de quem chegasse, também tendo em conta os espaços de sombra existentes em redor.

A princípio, não se liga muito às pessoas, porque ainda é cedo. Fazemos tempo quase sem esforço mental, de tal maneira nos entretemos com o ar que nos toca na pele e a acaricia. Estamos empolgados, não há dúvida nenhuma. Já não podemos fugir, não é que o quiséssemos, e a conjuntura move-se sem necessidade de autorização. Olhamos em redor, vemos quem passa e quem chega, e questionamo-nos «será ela», mas sem urgência.

O arrepio chega quando os ponteiros do relógio se alinham com as estrelas e, a partir daqui, todos os segundos contam. As possibilidades surgem de todos os lados, espreitam por todos os cantos, parecem brotar do próprio chão, das paredes, das árvores. Mantendo a calma, vão-se analisando e descartando todas as candidatas, o perfil pretendido já está seleccionado, é só encontrar aquela que os cumpre à risca, já que foram ditados para ela.

Ao fim de dez minutos, já não estamos tão seguros de nós próprios. Se tivéssemos trazido flores (não somos trouxas), já teríamos esmagado o caule e as flores estariam a sufocar. As mulheres que passam já nos parecem todas iguais, o que é que aquela vestia, qual a cor do cabelo da outra, que altura tinha a última?

Quinze minutos. As flores, se as tivéssemos, já pertenciam ao lixo, de que servem aquelas amostras murchas e atrofiadas. As miúdas que nos olham parecem rir-se de nós e já perdemos há muito a compostura. A única certeza que temos é a de que ela não vai aparecer. O telemóvel, que esteve desde o início ao alcance da vista, servia primeiro para que ela pudesse dizer «já cheguei, onde estás», depois para que tivesse oportunidade de desculpar-se do atraso e justificar-se com um pequeno suspiro, agora já troça de nós e nos comunica que estar desligado era o mesmo.

Vinte minutos. Nem que quiséssemos, não impediríamos os nossos pés de nos afastar daquele local aziago que não nos traz sorte. A mão no telemóvel mantém uma réstia ínfima de esperança de que ainda vibre, toque, uma voz feminina que ignoramos como soará nos diga com um tom convincente que fez todos os esforços para chegar a tempo mas que não devemos retirar-nos, está praticamente a chegar, e as auréolas à volta das axilas e as gotículas no buço a prova de que efectivamente saltou obstáculos para chegar até nós. Nem era necessário ter um salto partido, as calças cheias de lama e a blusa encharcada em suor. Um olhar de gratidão seria o suficiente. «Sei que esperaste, sei que não avisei que me ia atrasar, podemos relevar isso e fazer de conta que estes vinte minutos não existiram?» É quase com voz embargada que dizemos «claro, não foi nada, nem dei pelo tempo a passar».

De queixo enterrado no peito, olhos postos no chão e pontapeando as pedras da calçada, lá me afastei cabisbaixo. Se não tivesse um compromisso inadiável, ao qual ia pedir-lhe que me acompanhasse, quanto mais aguentaria a minha miséria? Não muito, reconheço. Prezo a pontualidade, é uma das minhas pedras de toque. Aviso quando me atraso cinco minutos, espero a mesma gentileza dos outros. Não custa nada. Mostra que se interessam.

Fiquei triste. Às vezes pergunto-me porque não ligo eu, para saber a razão do atraso da outra pessoa? Por uma razão muito simples: se quem está atrasado não se acha no dever de no-lo comunicar, é porque não se rala com isso.

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