Monday, March 29, 2010

Carvão II

Nunca é tarde demais. Conheço o Tempo, ele a mim, andámos às turras toda a minha vida. Exigi-lhe que voltasse atrás, ameacei-o de tornar-se tão lento que perderia o seu poder, rotulei-o de ingrato, de intruso, de perverso. Ordenei-lhe que me trouxesse até ti novamente, que me permitisse conquistar-te antes de morrer, antes de deixar de ser, antes de viver realmente.

Fiz uma aposta com ele, aceitou outra comigo, fizemos um pacto. Não regredi no tempo, guiou-me até ti, sim, mas com a experiência entretanto adquirida, com as rugas que entretanto me fizera, com a certeza de que onde outros perderam eu poderia ganhar, pelo que tinha a oferecer. Eu.

É um jogo cruel, por vezes não chega entregar-se, não chega envolver-se, não chega fechar os olhos. É preciso dar as mãos, entrar pelo olhar do outro, espiar lá dentro, retirar a essência, evidências de maturidade, de estabilidade,de consenso.

É preciso querer.

É uma aposta, mas está tanto em jogo. Quanto mais poderemos sofrer, quanto mais aguentaremos, quais são os nossos limites? Não merecemos realmente um momento de paz, de pureza, de claridade? Não serão os ardis meros obstáculos para valorizarmos mais o prémio final?

Penso nisso. Penso em ti. Quero-te. Não é uma mera aposta. É a minha vida que está em jogo. A morte renego-a, não tem para mim significado, escondeu-se atrás de um servo, não impressiona quando se quer tanto. Todos os esforços valem a pena, todos os estorvos são minúsculos, a eternidade espera-nos.


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