Monday, May 30, 2011

Diálogos Eróticos - Livro de Arte

A Cooperativa Árvore vai lançar mais um livro de Arte da sua colecção Os Nossos Amigos, desta feita sob o título Diálogos Eróticos, e convidou-me a participar. O livro será composto por pinturas, desenhos, poemas e prosa de artistas convidados e o meu texto terá as letras que se seguem, pela ordem que passo a enunciar:



QUEM

A luz passava pela frincha do estore como se invadisse sorrateiramente um território que ela própria queria deixar repousar mais um pouco, por respeito, antes de polvilhá-lo de farinha, especiarias e levar ao lume de mais um dia de trabalho.

Ao iniciar o processo de espreguiça, sentiu o peso que lhe comprimia o braço e lhe soprava ao de leve sobre o sovaco. Reprimiu a urgência de esticar todas as articulações do corpo durante um longo bocejo e usou o braço livre para afastar algum do cabelo negro que tinha aninhado contra si.

Observou o perfil de nariz maroto e maçãs sensuais, o pescoço de suavidade equiparável à de um pêssego por descascar, o ombro com sardas que pareciam areia da praia. Piscou os olhos, repetidamente, invectivando a sua miopia. Acordar para uma névoa era, em regra, um alívio que adiava a dura realidade, mas outras implicava não saber quem tinha ao seu lado.

Que horas seriam? O despertador não estava em cima da mesinha de cabeceira, o que sugeria que, ou fora roubado, ou a noite tinha sido mais louca do que a recordava. Inclinou-se para a segunda hipótese, já que sentia debaixo de si o que poderia muito bem ser um sapato de salto alto. E lembrava-se de, a dada altura, ter um par de cuecas de renda com o elástico preso às orelhas. E de cheirar-lhe, de entre todas as coisas, a banana.

Fragmentos da véspera abriam-lhe um sorriso nos lábios e animavam-no abaixo do umbigo. O dia tinha começado mal, mas terminado em cheio. Depois de uma noite de insónia pesada e debilitante, a olhar para o vazio entre as pestanas e o tecto através das pálpebras pesadas e cerradas, um dia que correra inesperadamente bem, com as peças a caírem acidentalmente em todos os sítios certos e a completarem o puzzle, que se revelara uma brilhante imagem de sucesso, em vez da dor de cabeça que antecipara

A miopia esbatia-lhe pormenores indesejados, um truque que o excesso de curvatura das suas córneas aprendera com as lições fotográficas de David Hamilton, ponto de focagem na periferia da retina, clic. Contudo, a proximidade do alvo permitia-lhe contornar os cabelos revoltos e concentrar-se nos lábios que assobiavam sem notas, assimilando suficiente detalhe para ter vontade de arrebatá-los, aquela rugosidade carnosa e rosada a comandar-lhe o pescoço como um flautista indiano à cobra do cesto. Mas um beijo não podia ser roubado assim, tinha de ser conquistado. Independentemente do que pudessem ter feito na noite passada, o que permanecia uma incerteza de que não se declarava culpado, o dia seguinte tinha regras próprias. E autorizações novas.

Um beijo era algo especial, uma mecânica entre duas bocas, desajeitado na primeira aproximação, os narizes que não sabem para que lado virar, as bocas secas, as línguas húmidas, a sofreguidão que tem de ser refreada, a intumescência que é resultado do intenso chuveiro dos terminais nervosos, que confluem todos para o que nela é o ralo e nele é o falo.

A seguir ao beijo, as autorizações passam a ser tácitas, os avanços e recuos controlados pelas reacções provocadas, cada toque um convite ao seguinte, cada peça de roupa que sai um grau centígrado que sobe, até que o estado febril exige atestado médico, o remédio é cama, imediata e prolongada, os estímulos incontroláveis e espasmódicos do desejo não têm cura, nem cura se quer.

Não se recordava de ter jantado, mas da euforia da noite sim, de vozes altas, de música ensurdecedora, de ter dançado sem questionar as mudanças de ritmo, de ter pago bebidas, de as ter bebido, de as ter entornado, de não se ter importado, de estar feliz e saber porquê, de ter porquê.

- Olá.

A suavidade de veludo da voz que o despertou do devaneio aderiu-lhe à pele. Ela espreguiçou-se como um gato e beijou-o na face, detidamente, roçando os lábios na barba por fazer, hirsuta como a de um homem das cavernas. O hálito que lhe invadiu as narinas era invulgarmente agradável, assim como o joelho que sentiu insinuar-se-lhe por entre as coxas.

Sentiu-se corar, por ter estado a observá-la como uma estranha e ela a falar-lhe com tanta familiaridade. Deveria dizer-lhe que a noite passada continuava a ser um conjunto de clarões indistintos, sensações quentes e agradáveis, mas sem nitidez?

- Não sei se ontem cheguei a ouvir o teu nome – ouviu-se dizer.

Ela riu-se e ergueu o tronco, sentando-se-lhe sobre a pélvis. Estava nua e isso foi o suficiente para que a carne dele se manifestasse, e quando lhe passou as unhas pela barriga, encolheu-a, arrepiado.

- Outra vez a mesma fantasia, maridinho? – perguntou-lhe ela.



36 comments:

  1. os meus pais também comentaram o final imprevisível. mas, de resto, gostaste do texto, da composição, parágrafo a parágrafo?

    penso que esteja bastante rico, gostei do texto. foi quase todo escrito nas brechas do trabalho.

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  2. gostei pela simplicidade implícita da cena que imaginei e porque é uma escrita fluída, subtil e isso permite a quem lê também alguma interacção ao nível da imaginação........ingrediente importante em qualquer tipo de escrita e muito mais na escrita erótica. Escrito nas brechas do trabalho???

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  3. sim, andei praticamente um mês e meio a adiar, sem ideias, e de repente, numa conversa, magiquei o conceito básico, que não era bem este, mas era parecido.

    era para ser um parágrafo passado de manhã, outro na noite da véspera, alternados, de maneira a parecer uma one night stand e a manhã seguinte, e no final descobria-se que o casal já estava junto há alguns meses, a noitada em flashback não era a noite da véspera, mas uma noite há alguns meses, como se uma relação tivesse nascido de um acto fortuito.

    depois, comecei finalmente a escrever, mas em casa faltava-me a pica. durante a semana fui trabalhando no trabalho a primeira fase da história, com grande atenção ao pormenor, a uma leitura fácil e ao despertar da curiosidade.

    os dois parágrafos dedicados aos beijos e ao sexo foram escritos de sopetão, durante a minha hora de almoço de domingo, com música de rodrigo y gabriela a bater forte nos auscultadores. toda aquela ansiedade que se lê, aquela febre que desperta e tudo devora, foi escrita de uma vez, sem revisões.

    a frase final, o twist, surgiu-me a meio da semana, estava eu a atirar ideias ao ar, e escrevi-a logo no telemóvel para não a esquecer.

    acho que o texto ficou espectacular. submeti-o aos organizadores do livro três vezes, porque lia o textto e sentia que tinha de mudar uma palavra, uma vírgula. ainda hoje reli o texto e alteraria uma coisa: no parágrafo que começa com "A miopia esbatia-lhe", não gostei de ver "contudo" e "contornar" tão perto um do outro. pedia-se-lhe um sinónimo, num sítio ou noutro.

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  4. acho que ficou perfeito : > : Fico à espera do(s) próximos. Quanto à inspiração .....às vezes temos de encontrar o estímulo certo .....deixa a imaginação rolar ! Boa escrita!

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  5. A minha imaginação não pára, eu tenho é imensa preguiça em passar a minha felicidade para o papel. Tenho medo de amaldiçoá-la, dessa forma, como os índios têm medo de perder a alma se forem fotografados.

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  6. very supersticious........so primitive (like me) and yet so sensitive............<3 then don't........just seize happiness as it happens

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  7. Every chance i get. i believe in not letting go of happiness when i find it. It's such a hard thing to find too.

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  8. hapiness are tiny little things.....moments and emotions shared together for brief minutes or hours.........but will always be kept in the memory of those hearts who lived it!

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  9. ... and will live it again, for happiness is painful when it is but a memory fading.

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  10. not in a million years......it burns so ferociously that not even a storm could not extinguish it's flame

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  11. Já cantavam as Bangles, Eternal Flame... :D

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  12. I feel the warmth of such flame and it is tender and it is soft, like the touch of those fingers i sense upon my body. oh sweet memory come rescue me...

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  13. ASAP.............and give new meaning to the present tense of the verb that produced such strong memories

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  14. There'no time like the present and memories need to be renewed by fresher ones. memories are like fish ...

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  15. couldn't agree more.........live each day as if there was not tomorrow, but knownig that tomorrow always comes better than the previous days.......as it has <3

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  16. I need to create new memories with you now...

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  17. .......all i think about is that one moment again! how I wish you could read it in my eyes right now

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  18. it was simply magical <3............(lysm)

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  19. we spark, we ignite, the rocket just keeps on circling the earth nonstop <3

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  20. it went through out the galaxy ......that's how I felt it..........living a dream with you <3

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  21. :> feel like HEAVEN on EARTH in your arms

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  22. heaven is a place on earth, já cantava a belinda carlisle :)

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  23. prefiro esta: http://www.reelclassics.com/Teams/Fred&Ginger/lyrics/cheektocheek-lyrics.htm


    <3

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  24. with you, heaven is a place just for ourselves <3

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  25. heaven happens everytime you touch me......... <3

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  26. poder tocar-te é um privilégio incalculável.

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  27. you wicked you : P.........good position

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  28. todas as posições são uma perfect fit, contigo

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  29. love to kiss every corner of your body.........

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