Friday, May 6, 2011

Hearts: A Study in Pink, With A Twist Of Red

Assim como o amor é um bailado, o coração é uma sapatilha de pontas. Para servir convenientemente a sua dona, não pode estar nas condições com que se adquiriu, tem de ser dobrado, amolgado, raspado, riscado. Só então, maleável, estará pronto a fazer o seu trabalho.

Um coração novo, de aspecto brilhante, colorido e fofo, é também inexperiente. Precisa de ser torcido, moldado às necessidades da dona. Para saber se é um bom coração, atire-se ás situações, de cabeça. Arrisque, como um gato atrás de um novelo. Se não lhe parece uma actividade divertida, é porque não é um gato. Mas, numa derradeira tentativa, repita a operação ao ar livre, num dia de temperatura convidativa. Se, ainda assim, se cansar depressa, pense que está apenas a testar a resistência e maleabilidade do seu coração. Convém fazê-lo durante o primeiro mês, para aproveitar a garantia. Lembre-se, há séries com defeito.

Tenha em atenção que, por muito bom que possa ser o seu coração, enquanto ente individual, terá de aprender a ajustá-lo ao daquele que ama. Os corações não têm todos a mesma forma, nem a mesma composição. São como peças de um puzzle maior. Para que possam ficar juntos, é preciso identificar bem os seus lados e cantos, até de olhos fechados. Ocasiões de fraca luminosidade surgirão em que essa capacidade lhe será de extrema importância. Previna-se. Treine os seus sentidos. 

Agora, atenção. O mercado está cheio de corações, quem lhe disse que aquele que escolheu é mesmo para si? Identifique as razões da sua escolha. Curiosidade? Atracção? Estética? Afinidades? Mesmo que esse outro coração esteja sozinho e pareça o tal, pode estar reservado a outrem, ou a ninguém. Tome nota. Saiba interpretar os sinais. Primeiro, os seus. Depois, os do outro.

Os corações depreciam. Pela idade, pela manutenção, pelo uso, podem perder valor. Até aos olhos do coração-par. Exactamente. Já obteve o coração cobiçado, já lhe arrancou afirmações de amor eterno, podem até ter sido concretizadas em carta e guardadas em cofre, assinaturas confirmadas por notário, mas nada disso garante eternidade. O coração é volitivo e está em constante evolução. O que satisfez as suas necessidades uma vez, poderá não as satisfazer para sempre. Ou porque perca convicção, ou porque as necessidades deixem de ser as mesmas. Faça listas. Mantenha-se atenta. Actualizada. Leia. Não viva só de receio, pergunte-se se o coração que escolheu continua, também, satisfatório.

No fundo, divirta-se. Não pense muito no que entretanto aqui se explicou, porque só irá enrugar o seu coração. O que tiver de ser, será. Não há como contrariar o destino. O coração não foi feito para ficar apertado, angustiado, nem com meras possibilidades de uma futura desgraça, nem com a sua consumação. Saia. Cuide do seu coração, conhecendo outros. 

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