Tuesday, February 10, 2015

Poema com faringite

"Beija-me antes. Para que adormeça de longe e escreva a tua boca nestes escritos. Quando te afastas fica a faringe fabulosa do teu corpo. Fica,esta vida de palavras que te dou, como esta certeza de mim mesma, eu, nua e livre num bosque, deflagradora: amor, nós e este tempo urdindo a textura da pele dum Domingo."
Ana Maria Domingues

Eu: A minha namorada pergunta se este texto é sadomasoquista.

Ana Maria Domingues: Ricardo Moura, acho o seu comentário tão desadequado e infeliz quanto a pergunta da sua namorada.

Eu: A Ana vai perdoar-me a ousadia, mas toda a poesia está aberta à livre interpretação do leitor, pelo que o meu comentário nunca poderá ser desadequado. A infidelidade na leitura em relação à intenção do autor é culpa partilhada.

Pergunto-me se a referência concreta a uma parafilia é suficiente para infelicitá-lo. Em tempos de sucesso de obras como As Cinquenta Sombras de Grey, que esta semana passa do papel à tela, imaginei que a tolerância para com os géneros malditos estivesse mais solta. Aliás, famoso ficou o Marquês de Sade pela invenção do sadismo e Leopold von Sacher-Masoch do masoquismo, dois expoentes inegáveis da literatura da sua época.

À expressão « faringe fabulosa do teu corpo», reagiu a minha namorada com a observação de que a única presença da faringe no amor carnal se encontra na prática da asfixia. A Ana banhava-se, eventualmente, apenas no simplismo das aliterações desguarnecidas, mas nada mais natural do que o leitor criar imagens mentais sobre o objecto lido.

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