A Cooperativa Árvore vai lançar mais um livro de Arte da sua colecção Os Nossos Amigos, desta feita sob o título Diálogos Eróticos, e convidou-me a participar. O livro será composto por pinturas, desenhos, poemas e prosa de artistas convidados e o meu texto terá as letras que se seguem, pela ordem que passo a enunciar:
QUEM
A luz passava pela frincha do estore como se invadisse sorrateiramente um território que ela própria queria deixar repousar mais um pouco, por respeito, antes de polvilhá-lo de farinha, especiarias e levar ao lume de mais um dia de trabalho.
Ao iniciar o processo de espreguiça, sentiu o peso que lhe comprimia o braço e lhe soprava ao de leve sobre o sovaco. Reprimiu a urgência de esticar todas as articulações do corpo durante um longo bocejo e usou o braço livre para afastar algum do cabelo negro que tinha aninhado contra si.
Observou o perfil de nariz maroto e maçãs sensuais, o pescoço de suavidade equiparável à de um pêssego por descascar, o ombro com sardas que pareciam areia da praia. Piscou os olhos, repetidamente, invectivando a sua miopia. Acordar para uma névoa era, em regra, um alívio que adiava a dura realidade, mas outras implicava não saber quem tinha ao seu lado.
Que horas seriam? O despertador não estava em cima da mesinha de cabeceira, o que sugeria que, ou fora roubado, ou a noite tinha sido mais louca do que a recordava. Inclinou-se para a segunda hipótese, já que sentia debaixo de si o que poderia muito bem ser um sapato de salto alto. E lembrava-se de, a dada altura, ter um par de cuecas de renda com o elástico preso às orelhas. E de cheirar-lhe, de entre todas as coisas, a banana.
Fragmentos da véspera abriam-lhe um sorriso nos lábios e animavam-no abaixo do umbigo. O dia tinha começado mal, mas terminado em cheio. Depois de uma noite de insónia pesada e debilitante, a olhar para o vazio entre as pestanas e o tecto através das pálpebras pesadas e cerradas, um dia que correra inesperadamente bem, com as peças a caírem acidentalmente em todos os sítios certos e a completarem o puzzle, que se revelara uma brilhante imagem de sucesso, em vez da dor de cabeça que antecipara
A miopia esbatia-lhe pormenores indesejados, um truque que o excesso de curvatura das suas córneas aprendera com as lições fotográficas de David Hamilton, ponto de focagem na periferia da retina, clic. Contudo, a proximidade do alvo permitia-lhe contornar os cabelos revoltos e concentrar-se nos lábios que assobiavam sem notas, assimilando suficiente detalhe para ter vontade de arrebatá-los, aquela rugosidade carnosa e rosada a comandar-lhe o pescoço como um flautista indiano à cobra do cesto. Mas um beijo não podia ser roubado assim, tinha de ser conquistado. Independentemente do que pudessem ter feito na noite passada, o que permanecia uma incerteza de que não se declarava culpado, o dia seguinte tinha regras próprias. E autorizações novas.
Um beijo era algo especial, uma mecânica entre duas bocas, desajeitado na primeira aproximação, os narizes que não sabem para que lado virar, as bocas secas, as línguas húmidas, a sofreguidão que tem de ser refreada, a intumescência que é resultado do intenso chuveiro dos terminais nervosos, que confluem todos para o que nela é o ralo e nele é o falo.
A seguir ao beijo, as autorizações passam a ser tácitas, os avanços e recuos controlados pelas reacções provocadas, cada toque um convite ao seguinte, cada peça de roupa que sai um grau centígrado que sobe, até que o estado febril exige atestado médico, o remédio é cama, imediata e prolongada, os estímulos incontroláveis e espasmódicos do desejo não têm cura, nem cura se quer.
Não se recordava de ter jantado, mas da euforia da noite sim, de vozes altas, de música ensurdecedora, de ter dançado sem questionar as mudanças de ritmo, de ter pago bebidas, de as ter bebido, de as ter entornado, de não se ter importado, de estar feliz e saber porquê, de ter porquê.
- Olá.
A suavidade de veludo da voz que o despertou do devaneio aderiu-lhe à pele. Ela espreguiçou-se como um gato e beijou-o na face, detidamente, roçando os lábios na barba por fazer, hirsuta como a de um homem das cavernas. O hálito que lhe invadiu as narinas era invulgarmente agradável, assim como o joelho que sentiu insinuar-se-lhe por entre as coxas.
Sentiu-se corar, por ter estado a observá-la como uma estranha e ela a falar-lhe com tanta familiaridade. Deveria dizer-lhe que a noite passada continuava a ser um conjunto de clarões indistintos, sensações quentes e agradáveis, mas sem nitidez?
- Não sei se ontem cheguei a ouvir o teu nome – ouviu-se dizer.
Ela riu-se e ergueu o tronco, sentando-se-lhe sobre a pélvis. Estava nua e isso foi o suficiente para que a carne dele se manifestasse, e quando lhe passou as unhas pela barriga, encolheu-a, arrepiado.
- Outra vez a mesma fantasia, maridinho? – perguntou-lhe ela.